Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação


Download Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação


Preview text

Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação
XXXIV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Recife, PE – 2 a 6 de setembro de 2011
Causos que se contam em Minas: a narrativa folkmidiática do Caboclo D’água1
Adriana Bravin2 Giulle Vieira da Mata3 Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP-MG)
Resumo
A narrativa de lendas e causos de assombrações e de monstros alimenta o imaginário e a imprensa local de Mariana (MG), tendo alcançado repercussão estadual e nacional com a projeção folkmidiática do personagem Caboclo D’água. A partir da perspectiva dos estudos da Folkmídia e do sensacionalismo na imprensa, o artigo investiga dois movimentos: 1) os modos de apropriação da narrativa popular pelos mídias jornalísticos, tendo como foco a construção de fait-divers sobre o Caboclo D’Água; 2) a ampliação do contexto de narração da lenda e a configuração do ambiente mediatizado como locus de novas comunidades narrativas.
Palavras-chave Folkmídia-lenda-notícia
Ficção? Realidade? Ou o que conduz esse fio narrativo?
Essa história poderia começar assim: “Esse bicho já virou tema de discussão, muitos
afirmam que já viram, muitos acreditam, e muitos duvidam que ele exista. Mas o que
será esse bicho? Assombração, um animal estranho? Ou um ET?” 4
Ou então assim: “Lá em casa o banheiro é do lado de fora e quando eu fui tomar banho
começou um subio (sic) de repiar (sic) o corpo. Não existe um subio daquele jeito,
quando a gente ouve ele, a gente fica com medo. Aí, quando começou esse subio, meu
pai falou: Oh minha filha! Sai do banheiro que o Caboclo D’Água tá na beira do rio” 5.
Ou ainda, como nos versos de Guimarães Rosa: “O canoeiro que vem no remo, desprevenido, ouve o gemido e fica a tremer/ É o caboclo d’água, todo peludo, todo oleoso, que vem subindo lá das profundas,/e a mão enorme, preta e palmada, de garras longas,/ pega o
1 Trabalho apresentado no GP Folkcomunicação, XI Encontro dos Grupos de Pesquisas em Comunicação, evento componente do XXXIV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. 2 Jornalista, mestre em Comunicação, Imagem e Informação, professora do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). E-mail: [email protected] 3 Cientista Social, mestre em Antropologia, professora dos cursos de Jornalismo e Serviço Social da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). E-mail: [email protected] 4 Jornal O ESPETO, Coluna Nossos Causos, página 2, 2ª. quinzena setembro 2008. O jornal editado em Passagem de Mariana, Mariana, MG, publicou o primeiro registro sobre a “criatura” na edição no. 89, que circulou na 2ª. Quinzena de janeiro de 2008, sob o título “Nego D’Água ataca em Barra Longa”, na coluna Nossos Causos. Nego D’Água é uma das formas populares que fazem referência à lenda do Caboclo D’Água. A referida coluna e as formas de tratamento jornalístico dado às lendas locais foram pesquisadas no ano de 2010, sob a coordenação da professora Adriana Bravin. Os resultados foram apresentados pela bolsista Amanda Rodrigues no Intercom Jr 2011 (Sudeste) Paper disponível em http://www.intercom.org.br/papers/regionais/sudeste2011/resumos/R24-0552-1.pdf 5 Ver http://www.youtube.com/watch?v=tuPlrBgrFX8&NR=1

Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação
XXXIV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Recife, PE – 2 a 6 de setembro de 2011
rebordo da canoinha quase a virar./ E o canoeiro, de facão pronto, fica parado, rezando baixo,
sempre a tremer.” 6
Os jornais, como O Espeto, editado no distrito de Passagem de Mariana, no município
de Mariana, a 115 quilômetros da capital Belo Horizonte, dizem que a estranha criatura
vem “aterrorizando” as redondezas. Já teria atacado bezerros e homens na localidade de
Barra Longa, próxima a Mariana, e em função disso iniciou-se uma “caçada” ao bicho,
com direito a prêmio em dinheiro para quem conseguir sua “foto verdadeira”. Aliás, a
“verdadeira” história do Caboclo tem até uma origem, relatada pelo fazendeiro Antônio
Felipe, 82 anos, “contador oficial” do “causo” ocorrido em Barra Longa, e que garante
ser a única pessoa capaz de ver o Caboclo D’Água, de quem seria amigo:
"(...) Com o passar do tempo ele foi se acostumando comigo, tomando confiança. Foi se mostrando aos poucos e hoje posso dizer que somos meio amigos. Tem gente que não acredita que ele existe. E ele se diverte com isto, gosta de me ver passar como mentiroso... Jurou, de pé junto, que nunca iria deixar ninguém ver ele. Só eu. Se alguém disser por aí que também viu o Caboclo D’água pode ter certeza que não é o verdadeiro. (Seu Antônio Felipe, 82 anos, fazendeiro) (http://barralongacultura.blogspot.com/2009/09/verdadeira-historia-do-caboclodagua.html)
Pensou que a história acabou? Como dizem em Minas, cabou não! A notícia sobre a
caçada ao Caboclo D’Água se espalhou e estampou a capa do jornal “Super Notícia” 7,
de Belo Horizonte, chegou às TVs8, às redes sociais, com perfis no twitter e no
facebook9, ganhou verbete na Wikipédia10 e vídeos no Youtube11. De acordo com as
narrativas difundidas pelos diversos meios, a estranha criatura seria a própria
“materialização” do Caboclo D’Água, personagem do folclore brasileiro, associado às
6 Ver Guimarães Rosa. “Magma”. São Paulo: Nova Fronteira, 1997 7 Super Notícia, Belo Horizonte, 17/06/2011, Cidades, pg 3. 8 Com reportagens veiculadas, em junho de 2011, nas redes Globo (Globo Minas, Programa Mais Você, Jornal Nacional); SBT; Record (Programa Balanço Geral); Band; TV Inconfidentes (Ouro Preto/MG). Uma síntese das reportagens está disponível no Youtube: http://www.youtube.com/watch?v=gztNSpzUFJk&feature=related 9 Perfil no Twitter (http://twitter.com/#!/Caboclodagua) e no Facebook (https://www.facebook.com/update_security_info.php?wizard=1#!/profile.php?id=100002608741235) 10 http://pt.wikipedia.org/wiki/Caboclo_d'%C3%A1gua 11 São diversos os gêneros: videoconto (http://www.youtube.com/watch?v=zS0Sn6sw7Ps); propaganda (http://www.youtube.com/watch?v=PCRnLzNWKmU); música e vídeo (http://www.youtube.com/watch?v=IiGMCubMEHM); funk (http://www.youtube.com/watch?v=An3hOkENl3M&NR=1); narrativa visual/desenho (http://www.youtube.com/watch?v=A-Ni2z5cO2Y&feature=related) relato oral (http://www.youtube.com/watch?v=tuPlrBgrFX8&NR=1) No Youtube, há 196 referências à palavra “caboclo d’água”.

Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação
XXXIV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Recife, PE – 2 a 6 de setembro de 2011
regiões ribeirinhas do vale do São Francisco, no Norte de Minas Gerais, e do rio Amazonas (AM). Mas, como lendas, mitos e “causos” desconhecem fronteiras geográficas, a história do bicho que ataca animais à beira dos rios ou se vinga de quem mergulha nas águas por ele “protegidas” também alimenta o imaginário dos moradores de Barra Longa, Passagem de Mariana, e Mariana, na Região Central de Minas Gerais, banhadas pelo Ribeirão do Carmo. “Lenda ou realidade?”, questiona o jornal impresso Super Notícia12, em matéria sobre o prêmio de R$ 10 mil a quem conseguir fotografar o bicho, publicada em página inteira no caderno Cidades, com manchete na capa.
“Uma recompensa no valor de R$ 10 mil. Este é o valor oferecido pela Associação de Caçadores de Assombração para quem conseguir fotografar o suposto “Caboclo D’Água”. Há pelo menos oito anos, o bicho, que seria uma mistura de pássaro, galinha , lagartixa e macaco, estaria assustando e provocando pânico entre os moradores de Mariana.” (SUPER NOTÍCIA, 17/07/2011, Cidades, pg. 3)
Certas de estarmos diante da forma narrativa mínima, ou seja, “alguém diz a outra pessoa que algo ocorreu” (GORLIER,2004), e, ainda, de uma estrutura jornalística que mescla narrativas populares (lendas) à sensacionalização e ficcionalização do fato (ANGRIMANI, 1995), analisamos nesta comunicação, por meio das diversas narrativas produzidas a esse respeito, dois movimentos em relação à projeção folkmidiática do “personagem” Caboclo D´água: 1) a apropriação da lenda pelos mídias noticiosos e sua configuração em matéria sensacionalista e fait-divers; 2) a ampliação dos contextos de narração, e da audiência, para os ambientes mediatizados, como lócus de novas comunidades narrativas. Em ambos, procuramos observar os novos contornos e sentidos implicados na lenda enquanto narrativa popular formuladora de experiências.
A via de mão dupla entre mídia e folclore Por Folkmídia entendemos, conforme delimitou LUYTEN (2002), “os processos por meio dos quais os meios de comunicação de massa recuperam e recodificam as manifestações populares, seus códigos, seus simbolismos e sua iconografia,bem como a influência dos produtos da cultura de massa no âmbito da cultura popular” 13.
12 Super Notícias é o jornal popular que mais vende no país, segundo dados do IVC: 300 mil exemplares/dia. Pertence ao grupo Tempo Editora, de Contagem, MG. 13 Ver Joseph Luyten. “Folkmídia: uma nova visão de folclore e de folkcomunicação”. Trabalho apresentado na V FOLKCOM, Santos, SP, maio de 2002.

Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação
XXXIV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Recife, PE – 2 a 6 de setembro de 2011
Assim, através da própria dinâmica da transmissão folclórica – por meio oral (narrativas populares), gestual (autos) e impresso (cordéis e folhetos) – e da dialética permanência/mudança que acompanha a tradição, o processo folkmidiático opera apropriação e ressignificação dos signos da cultura folk que possam transmitir a mensagem desejada, utilizando-se de códigos icônicos, linguageiros ou sonoros compartilhados pelos receptores – levando-se em consideração as referências culturais para o entendimento da mensagem (SOUZA, 2004; D’ALMEIDA, 2006). Ao diferenciar os termos folkmidia de folk media, Luyten tem em mente que este último refere-se aos canais de comunicação folk, numa alusão à concepção pioneira da Folkcomunicação, formulada por Luiz Beltrão, ou seja, o “conjunto de procedimentos de intercâmbio de informações, ideias, opiniões e atitude dos públicos marginalizados urbanos e rurais, através de agentes e de meios direta ou indiretamente ligados ao folclore” 14. Desse modo, a Folkcomunicação, como disciplina teórica, volta-se para a análise interdisciplinar das formas de comunicação das culturas populares e de sua circulação na sociedade, “sem levantar fronteiras rígidas entre ela e as culturas de massa, a rural e a urbana” (D’Almeida, 2004:81) e é concebida “como uma comunicação de resistência, mais do que simplesmente alternativa e de marginalizados” (HOHLFEDT, 2006: 65) Uma das novas abrangências da teoria formulada por Beltrão abarca, conforme BENJAMIN (2001) 15, o estudo da apropriação de elementos da cultura folk pela cultura de massa e pela cultura erudita, ou seja, o campo dos efeitos das mensagens populares recebidas/ apropriadas e transformadas em novas mensagens pelos meios de comunicação a partir da “projeção do folclore”. Avançando na proposta teórica beltraniana, a concepção do termo Folkmidia implica “interação” e “inter-relação”, numa via de mão dupla: os chamados mass media alimentam-se de e retroalimentam a cultura folk. Assim, conforme D’Almeida (2006), o conceito refere-se a um campo de estudos da comunicação em que se investiga a presença de elementos da cultura popular na mídia de massa e desta naquela, e a maneira pela qual os sujeitos dos meios de comunicação (re)interpretam e recodificam esses elementos. A partir desta concepção centrada no “sujeito (dos meios de) da comunicação”, identifica-se o permanente intercâmbio entre as culturas ou, dito de outro modo, entre os
14 Ver Luiz Beltrão. “Folkcomunicação: a comunicação dos marginalizados”. São Paulo: Cortez, 1980. 15 Ver Roberto Benjamin. “Folkcomunicação no contexto de massa”. João Pessoa: EDUFPB, 2001

Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação
XXXIV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Recife, PE – 2 a 6 de setembro de 2011
produtores/receptores dos meios massivos (e/ou em rede, tais como blogs e redes sociais, no caso do Caboclo D’água) e os produtores/receptores da cultura popular (os contadores de causos/narradores no sentido tradicional, que aparecem como fontes jornalísticas nas narrativas midiáticas sobre este “fenômeno” e sua audiência). Desta forma, torna-se possível alcançar variados públicos leitores/receptores da lenda do Caboclo D’água, agora midiatizada, difundindo-se a cultura folk “com toda sua crítica e humor a um outro público que não tem acesso ou convívio com a cultura popular” (Silva, 2004). Além disso, a incidência de tais temas na mídia reflete ainda a expectativa dos editores (meios massivos) em atingir segmentos que se incorporam ao seu mercado consumidor.
Lendas comunicam Ao nos voltarmos para o estudo das lendas e de sua difusão por vias midiáticas convém lembrar a função que elas exercem: moralização e controle social. É o que se pode observar, por exemplo, a partir do contexto histórico da antiga região aurífera de Minas Gerais, onde se localizam Passagem de Mariana, Mariana e Barra Longa, com relação às narrativas populares sobre entidades e fantasmas ligados ao ciclo do ouro. No ambiente da mineração, as lendas e crenças carregavam sentido ora de punição (contra os que exploravam o ouro sem “permissão”), ora de proteção (contra os acidentes do trabalho). Os acidentes eram vistos como punição da “mãe terra” para aqueles que ousaram explorá-la16. Então, quais seriam os sentidos que a “comunicação” da lenda do Caboclo D´Água engendra na atualidade, a partir de sua folkmidiatização? Para buscar essa resposta cabe discutir, brevemente, o conceito de lenda, matéria-prima dos fait-divers sobre o Caboclo D’Água produzidos na imprensa. O Dicionário de Teoria Folclórica (1977)17 define lenda como uma “narrativa imaginária que possui raízes na realidade objetiva (...). É sempre localizável, isto é, ligada ao lugar geográfico determinado” (p. 132). Para Luís da Câmara Cascudo (1976) não se confunde mito e lenda.
As lendas são episódio heróico ou sentimental com elemento maravilhoso ou sobre-humano, transmitido e conservado na tradição
16 SOUZA, Rafael. Trabalho e cotidiano na mineração aurífera inglesa em Minas Gerais: A Mina da Passagem de Mariana (1863-1927), 2009. Tese doutorado. Departamento de História, FFLCH, Universidade de São Paulo. 17 Ver Dicionário de Teoria Folclórica. Guatemala: Editorial Universitária, Universidade de São Carlos de Guatemala,1977.

Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação
XXXIV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Recife, PE – 2 a 6 de setembro de 2011
oral e popular, localizável no espaço e no tempo. De origem letrada, lenda, legenda, “legere” possui características de fixação geográfica e pequena deformação e conserva-se as quatros características do conto popular: antigüidade, persistência, anonimato e oralidade. É muito confundido com o mito, dele se distância pela função e confronto. O mito pode ser um sistema de lendas, gravitando ao redor de um tema central com área geográfica mais ampla e sem exigências de fixação no tempo e no espaço. (Cascudo, 1976, p. 378)
A própria história narrada na lenda consiste no fato de algo ter acontecido em algum lugar a alguém, não importa se realidade ou fantasia. Nas narrativas sobre o Caboclo D’Água colhidas nas mídias – sejam de cunho jornalístico ou pessoal – as histórias se baseiam, principalmente, na experiência daqueles que narram, mas também recorrem a testemunhos de segunda, terceira e quarta mão. Verdade ou mentira, pouco importa. A lenda permite configurações, a existência mesmo de pessoas e suas experiências. E, portanto, possibilita acesso ao que ela faz existir18. Deste ponto de vista as lendas são tomadas como “formas de descrever e de interpretar experiências socioculturais” (TURNER, 1974:64), mas de experiências que são formuladas, logo, as lendas em si como formulações de experiências19.
Narrar lendas é uma forma de ação bem visível de configuração da própria história, onde os termos “comunidade” e “legimitidade” aparecem interligados segundo um determinado senso de finalidade que visa tanto avaliação quanto validação e motivação de comportamentos. (MATA, Giulle V., 2008, p. 32)
As lendas, como fatos folclóricos, necessitam de aceitação por uma comunidade determinada para começarem a circular (JAKOBSON, 2009) e se legitimarem como narrativas formuladoras de experiências (MATA, 2008). A lenda, enquanto narrativa popular com alguma relação com a realidade da qual emerge, funciona como comunicação (no sentido inter-relacional), e a prática da narração na qual se insere, ou seja, a “contação”, o “narrar lendas”, como eficiente meio de comunicação. É desse modo que a lenda possibilita a participação na experiência cotidiana.
18 Segundo Jolles (1976), ao narrar uma história, “a lenda obriga-se a ter um desenvolvimento que corresponda à história de uma existência real” (p. 76). Como exemplo, cita a origem das lendas, a partir das compilações de histórias e depoimentos sobre a vida e os atos dos santos. O “nascimento” do santo, diz ele, parte “da” comunidade e “para” a comunidade, pois o processo de canonização relaciona-se diretamente com o reconhecimento e comprovação dos milagres, que levam à beatificação e, por fim, à canonização. Ver André Jolles. “Formas Simples”. Trad. Álvaro Cabral. São Paulo: Cultrix, 1976 19 A esse respeito ver Giulle Adriana Vieira da Mata. “Os Irmãos Piriás: A gramática moral de uma lenda contemporânea”. Dissertação de mestrado. Departamento de Antropologia. Fafich. UFMG, 2008

Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação
XXXIV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Recife, PE – 2 a 6 de setembro de 2011
No processo folkmidiático em análise, narrativa popular e narração são retomadas e recriadas sob diferentes linguagens e em distintos meios comunicativos. Os sujeitos narradores, por sua vez, foram transpostos do ambiente da tradição oral, da experiência do “ao vivo” e da narração enquanto performance, para um novo locus, mediatizado.
Que sensacional! Parece verdade, mas não é? Como os sujeitos da comunicação massiva interpretam e recodificam a lenda do Caboclo D’água? A pergunta orienta a reflexão sobre o processo folkmidiático em análise, a partir da apropriação da lenda pelos mídias noticiosos e sua configuração em matéria sensacionalista sob o manto de fait-divers. E como narrar, seja ao vivo, numa roda de amigos, na literatura, na Internet, ou na imprensa significa conectar eventos e tramá-los, dar-lhes um sentido, é possível pensar que a narração tem um dimensão dirigida a capturar a atenção da audiência. Esse elemento direcional intrínseco à narração nos diz que, se alguém relata é porque crê que atrai nossa atenção.
Vejamos como os conceitos de “sensacionalismo” na imprensa e de fait-divers nos ajudam nesta reflexão. A imprensa sensacionalista está associada à ideia de provocar respostas emocionais no leitor a partir de algumas estratégias discursivas próprias, tais como:
“modo de produção discursivo da atualidade, processado por critérios de intensificação e exagero gráfico, temático, linguístico e semântico, contendo em si valores e elementos desproporcionais, destacados, acrescentados ou subtraídos no contexto de representação ou reprodução de real social” (PEDROSO apud ANGRIMANI, 1995, p. 14)
O capitalismo e a venda estão associados ao sensacionalismo, ou ao modo jornalístico sensacionalista, e dele se utiliza para construir notícias que despertem no leitor suas necessidades instintivas (ANGRIMANI, 1995). Outro aspecto é que o “sensacionalismo é a produção de noticiário que explora o real, que superdimensiona o fato. (...) e a ‘notícia’ é elaborada como mero exercício ficcional” (p. 16). Dentre os “nutrientes” do sensacionalismo está o fait divers, além de lendas, crenças populares, pessoas e animais com deformações, todos com possibilidades, portanto, de serem superdimensionados nas manchetes escandalosas.
A palavra francesa fait divers designa “notícias diversas”, e envolve os pequenos escândalos, acidentes aparentemente sem causas, etc. Roland Barthes denomina os fait divers de inclassificáveis da informação. Catástrofes, acidentes, casos de polícia,

Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação
XXXIV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Recife, PE – 2 a 6 de setembro de 2011
assuntos do cotidiano que despertam nossa curiosidade mórbida são uma espécie de
“refugo do inominável, do inclassificável” (BARTHES, 1966: 57-58)
O fait divers é uma fonte riquíssima de conteúdo para que o sensacionalismo
venha à tona. Ele busca na extravagância do fait divers ingredientes para manchete de
capa, tais como: “Nego D’água ataca em Barra Longa”, seguida da linha fina: “Muitos
moradores afirmam que monstro de quase dois metros percorre o rio do Carmo,
assobia e ataca pescadores”20. Ou ainda: “R$ 10 mil por foto de monstro”, seguida da
linha fina: “Membros da Associação de Caçadores de Fantasmas de Mariana buscam
pista de suposta criatura que estaria atacando moradores da região”21
Enquanto exercício “ficcional”, a sensacionalização da lenda do Caboclo D’água
permite uma sequência de narrativas jornalísticas “intermináveis” sobre aparições e
ataques do bicho (desde 2008 sendo relatada no jornal O Espeto) e, mais recentemente,
sobre a caçada a essa “aberração” da natureza. O jornal retroalimenta a própria lenda,
operando a notícia verdadeiramente como artefatos.
O fait-divers proporciona ao público uma explicação satisfatória daquilo que, às
vezes, escapa à compreensão. No entanto, ao fazer isso, ele remete à dúvida sobre a
coerência do mundo, pressente a ambigüidade entre o inteligível e o ininteligível. Como
na sequência narrativa da reportagem do SBT/TV Alterosa (BH):
R22: Mariana, cidade histórica, e assombrada? E1: Ah, nada, tem disso não. R: Não tem né. Olha o que diz o servente de pedreiro. E2: Eu ouvi comentário aí. R: Comentário que só aqui que se ouve. Pelo folclore da região, assombrações aparecem em Mariana, Ouro Preto, Acaiaca, Barra Longa e distritos (mostra caricaturas das assombrações publicadas no jornal O Espeto). O mapa do sobrenatural foi feito por uma associação coordenada por este homem (imagem do prof. da Ufop, Milton Bringolini) – Associação dos Caçadores de Assombração de Mariana. Os caçadores de fantasmas usam de tudo para achar as almas penadas: GPS e laser pra desentocar os fantasminhas. E3: (prof. Milton) Acertando no olho ele perde a visão e fica mais fácil da gente se aproximar. R: A associação já catalogou mais de 30 assombrações e coisas do gênero. Então, a ideia da associação foi pra poder desvendar esses mistérios? E3: Isso, e pode ter lenda, mas muitos (casos) são verdade.
A lenda transformada em matéria jornalística põe em xeque o estatuto da notícia – a
facticidade -, porém, isso não é suficiente para diminuir o interesse/curiosidade dos
leitores, muitos também narradores, dos “fatos”. É justamente por tratá-la como matéria
incomum, bizarrice, coisa inexplicável que a estranha história do Caboclo D’água ganha
20 Op cit nota 4. 21 Op cit nota 7. 22 Onde lê-se R=repórter; E=entrevistado

Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação
XXXIV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Recife, PE – 2 a 6 de setembro de 2011
as manchetes dos jornais e provoca uma “concorrência” entre as principais redes de TV abertas do país em torno de sua publicização. Isto porque, no filtro que regula o que é ou não noticiável na imprensa, tais eventos aparecem na linha de frente por despertarem o “interesse humano”. Quem não teria medo diante de tal ameaça? Além disso, interpela seu público leitor, conforme explicado acima. No caso do jornal O Espeto isso fica explícito desde a escolha do fato – colhido a partir de relatos orais das lendas locais, narrados de maneira a reafirmar o que a população acredita ser “verdadeiro”, utilizando-se de narradores da própria comunidade – até a linguagem coloquial empregada, com o uso de erros propositais de português, num esforço em se fazer entender (pelos leitores) e em ser fiel ao fato narrado23. Como no trecho a seguir: “Uma hora ele aparece, atraído pelo som do berrante achando que é um bizerro aí infio essa foice na testa dele! Disse Teleco. Outra forma é amarrar alguém na beirada do rio pra servir de isca, mas falta voluntários”24. O Espeto procura manter-se “fiel” aos narradores – fontes jornalísticas da própria comunidade –, reforçando o aspecto moral da lenda – criar medo e gerar controle social – e recriando-a permanente, pois lendas são histórias feitas para durar. Pode-se afirmar que O Espeto, inserido no contexto de narração local, reconhecido pela comunidade como “porta-voz” de sua história e cultura (denomina-se um jornal histórico e cultural), também exerce o papel de narrador do causo, ao selecionar, enquadrar, sensacionalizar, embaralhar os gêneros (Notícia? Opinião? Causo? Lenda?). O mesmo não se aplica ao Super Notícia e às redes televisivas que, apesar de se utilizarem das mesmas fontes que aparecem no jornal O Espeto, e de conduzirem a narração de maneira semelhante, “pautam” e recontam a história a partir de um único “interesse jornalístico” – a “novidade” em torno da caçada ao caboclo e do prêmio de R$ 10 mil reais por sua foto. Não recriam a lenda em torno de novos “eventos”, a exemplo de O Espeto. Outro aspecto a se destacar nesses contextos narrativos mediatizados é a utilização do humor, associado ao “mistério”, o que dá às reportagens televisivas sobre o caso um tom de “filme trash de terror” (seja na ambientação sonora ou na condução das passagens dos repórteres e das entrevistas). Por vezes, repórteres e entrevistados não seguram o riso, como neste trecho da reportagem da Rede Record:
R: Anderson quer atrair o caboclo pelo cheiro. Diz que desenvolveu um produto à base de células tronco de bezerro. Células tronco? Como é que é o negócio?
23 Entrevista com o editor do jornal, Leandro Henrique dos Santos, em 5 de maio de 2010, na sede de O Espeto. 24 “Caçada ao Caboclo D’água continua”. O Espeto, Coluna Nossos Causos, 2ª. quinzena abril 2009, p. 2.

Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação
XXXIV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Recife, PE – 2 a 6 de setembro de 2011
E:Células tronco de bezerro, isso mesmo. R: Isso é mentira, isso não é verdade não (risos)
Narrativas populares no contexto folkmidiático: o contar e recontar continua Mas, afinal, voltando à pergunta inicial desta comunicação, que bicho é esse? Dizem que ele vive nas profundezas das águas e nos alagadiços, assombra pescadores e navegantes, afunda embarcações. Também o chamam de Nego D’água e Bicho D´água. Ao Caboclo D’água são dedicadas às carrancas esculpidas na proa das embarcações no Velho Chico, como forma de assustar o bicho. Das histórias que se contam a seu respeito há várias relatadas na Internet. Como essa, colhida na Wikipédia, a biblioteca virtual produzida pelos próprios usuários:

Um pescador conta ter visto um animal morto boiando no rio; ao se

aproximar com a canoa, notou que se tratava de um cavalo, mas, ao

tentar se aproximar, para ver a marca e comunicar o fato ao dono, o

animal rapidamente afundou. Em seguida, o barco começou a se mexer.

Ao virar-se para o lado, notou o Caboclo d'Água agarrado à beirada,

tentando virar o barco. Então o pescador, lembrando-se de que trazia

fumo em sua sacola, atirou-o às águas, e o Caboclo d'Água saiu dando

cambalhotas,

mergulhando

rio-abaixo.

(http://pt.wikipedia.org/wiki/Caboclo_d'%C3%A1gua)

Atualizada permanentemente, a Wiki registra a aparição da criatura em Barra Longa (MG), em junho de 2011, e o destaque que ganhou na mídia nacional. “Inclusive, no dia 29 de junho teve uma reportagem especial no programa da Ana Maria Braga, no ‘Mais Você’”, completa o verbete dedicado ao Caboclo D’Água. Neste contexto de narração mediatizado, a própria lenda se mistura à realidade e o “narrador” escolhe o que acrescentar ao evento/fato por ele narrado. A descrição contém o que autores, como Gorlier (2004), consideram como “universo do discurso” na narrativa: emissor-receptor-mensagem-referente. Em um sentido restrito, uma narração é um relato oral ou escrito que possui as quatro instâncias citadas. Este “universo”, segundo o autor, possui dois eixos, com dois pólos: “el eje semántico, frases escritas o habladas diciendo algo, refiriendo a algo. El eje pragmático, alguien hablándole a outro” (GORLIER, 2004, p 35). Assim, o universo do discurso extendese do ambiente oral ao escrito ou mediatizado, como defendemos aqui. O tratamento dado as história do Caboclo no ambiente mediatizado remete, num primeiro momento, à manutenção da lenda, com variadas descrições a respeito do bicho

Preparing to load PDF file. please wait...

0 of 0
100%
Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação